O perigo de ser previsivelmente irracional nos investimentos – e fora deles!

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Olá!

Sejamos sinceros: está cada vez mais difícil encontrar um filme legal para assistir no Netflix e a tarefa fica ainda mais complicada se, assim como eu, você já viu e reviu todos os grandes clássicos do cinema trocentas vezes.

Ok, mas e as séries? Não são excelentes? Viciantes? Dignas de maratonas? Sim, sim e sim. E esse é o problema. As séries me tomam um tempo que não tenho e é por isso que restrinjo o cardápio somente àquelas realmente “vitais” ao ser humano: Game of Thrones, Billions, Stranger Things…

E foi numa dessas incessantes buscas por filmes no Netflix que encontrei o documentário – (DIS)Honesty – The truth about lies, de Dan Ariely  – que, como o próprio título sugere, trata sobre a desonestidade humana, assunto tão em voga nos dias atuais.

Somos todos ladrões em potencial?

E, para surpresa geral da nação, o que se comprovou com os experimentos realizados é algo no mínimo inusitado: nossos “digníssimos” políticos corruptos talvez não sejam assim tão diferentes de todo o resto de nós no que tange a honestidade. Infelizmente, o que o experimento sugere é que a antiga expressão utilizada há centenas de anos: “a ocasião faz o ladrão” é perfeitamente correta.

Em tese, o que se concluiu foi o seguinte: uma parcela mínima dos seres humanos será honesta em toda e qualquer situação (algo entre 1% das pessoas), outra parcela igualmente mínima será desonesta em toda e qualquer situação (1% das pessoas) e todo o resto será honesto desde que as condições sejam favoráveis, mas, se as tentações forem suficientemente grandes, também serão desonestos.

E, convenhamos, as estatais e aquele mar de dinheiro público devem ser tentadores, não?

Enfim, última coisa que pretendo é amenizar os malfeitos desse pessoal do congresso. Penso que todos devem, após o devido processo legal, sofrer as punições cabíveis, mas, de todo modo, fica a sugestão para que você assista a esse interessantíssimo documentário. Você vai desfrutar de 1h30min de revelações intrigantes acerca do comportamento humano!

O que nos torna previsivelmente irracionais?

Verdade seja dita, o artigo de hoje nem é sobre o documentário e sim sobre outra obra de Dan Ariely, o livro: Previsivelmente Irracional, que terminei de ler essa semana e recomendo fortemente que você o faça. É fascinante.

O livro trata da irracionalidade humana na tomada de decisões, provando que, apesar de acreditarmos estar no comando e teoricamente sermos capazes de fazer escolhas certas e racionais, a realidade é completamente diferente. Somos influenciados de diversas formas (emoções, apego, normas sociais) e no fim nossas escolhas acabam por ser previsivelmente irracionais.

Um dos trechos que mais me chamou a atenção foi retirado do capítulo 7: O Alto Preço da Posse, pois podemos utilizar o conceito de maneira análoga às nossas ideias de investimentos. Vejamos:

“Assim que tomamos posse de uma ideia – quer seja sobre política ou esportes – o que fazemos? Adoramos essa ideia, talvez mais do que deveríamos. Nós a prezamos mais do que vale e, muito frequentemente, temos dificuldade para descartá-la – porque não suportamos a ideia da perda. Então com o que ficamos? Uma ideologia – rígida e inflexível.Dan Ariely

Sobre o sentimento de posse

Quantos de nós, investidores, já nos vimos nessa situação – de estar comprado em um ativo em que depositamos grande confiança e permanecemos comprados mesmo quando todos os sinais indicam ser um grande erro?

Por que somos tão irracionais assim? Simples, temos sentimento de posse! Isso serve inclusive para explicar porque relacionamentos amorosos nitidamente fracassados perduram muito mais do que deveriam. Posse.

Quando somos donos de algo – seja a ação de determinada empresa, um terreno no campo ou uma casa de praia – começamos a valorizá-lo mais do que as outras pessoas. Idealizamos nosso bem. Isso ocorre de maneira inconsciente e até de certa forma, como um processo natural do ser humano.

Segundo Dan Ariely, existem três condições responsáveis pela nossa irracionalidade:

  •         Nos apaixonamos pelo que já temos;
  •         Nos concentramos no que podemos perder, e não naquilo que podemos ganhar;
  •         Presumimos que as outras pessoas têm a mesma percepção que nós temos;

Essa nossa capacidade de nos apegarmos imediatamente ao que temos transforma e modifica substancialmente as decisões que tomamos. Por isso, é muito mais fácil para quem está de fora analisar a situação e tomar uma decisão mais racional e correta. Não existe paixão envolvida e, portanto, não estão parcialmente cegos.

A eficácia do distanciamento

A solução que Dan Ariely encontrou é a de tentar sempre encarar as transações como se não fosse proprietário, pondo alguma distância entre ele e o objeto de interesse. Acho bem difícil, mas não custa tentar.

E, já que estamos falando de comportamento humano, uma das minhas principais premissas quando o assunto é investimento é: tenha muito cuidado com as certezas absolutas do seu portfólio.

A mente humana é traiçoeira e após assumirmos determinada premissa positiva sobre um ativo, tendemos sempre procurar por notícias e explicações que corroborem com essa nossa percepção ideal, ao mesmo tempo em que desprezamos informações que a refutem. O que é um perigo nos investimentos!

Queremos estar certos e procuramos formas de nos convencer de que realmente estamos.

Para deixar de ser irracional nos investimentos

Hoje em dia, a ação do Banco Itaú, mais especificamente de sua holding, Itaúsa (ITSA4), é o que poderíamos chamar de certeza absoluta da Bovespa e ao que tudo indica, de fato, a escolha faz total sentido.

Empresa excepcional, ótima pagadora de dividendos, banco mais rentável do mundo etc e etc. Todos os meios que leio só encontro elogios e mais elogios.

Sou cliente Itaú e adoro o serviço deles. Sou “dono” acionista do Itaú e, assim como a maioria dos gestores, também a considero a melhor empresa da bolsa, mas e agora? Será que estou enxergando claramente o valor da empresa ou é o olhar distorcido de um dono apaixonado?

Faça essa reflexão sobre suas operações e evite ser irracional nos investimentos.

Boa semana a todos!

Até a próxima,

Gustavo Rigon.

Gustavo Rigon

 

* Gustavo Rigon é colunista e escreve para este blog e para a newsletter Investidor de Sucesso.