Ação barata: você compraria m* por que o preço é bom?

Tempo de leitura: 4 minutos

*Por Gustavo Rigon

“Você compraria m* por que o preço é bom?” Essa é uma pergunta que um grande amigo me fez quando, há alguns anos, sugeri comprarmos ações da OGX. Na época, a cotação tinha despencado de R$ 20,00 para menos de R$ 4,00 e me parecia uma pechincha tão grande que lembro ter pensado: “a ação está muito barata, não tem como perder dinheiro nisso”. E tinha.

A recordação dessa empresa moribunda surgiu devido às fortes altas que as ações tiveram após o anúncio do fim da recuperação judicial na última quarta-feira (02/08/17). Cê acredita?

Por que o ser humano adora uma liquidação?

Poderia escrever páginas sobre o quão prejudiciais as empresas “X“ de Eike Batista foram à Bovespa, mas o foco hoje é discutir o comportamento humano e tentar entender porque continuamos a comprar produtos ruins em liquidação.

Às vezes me pergunto se existe algum componente psíquico nos seres humanos que faz com que o cérebro, ao deflagrar algo com muito desconto, “grite” a plenos pulmões: “Não perca essa oportunidade, vale muito a pena!”

O fato é que, na maioria das vezes, não vale, e funciona assim para tudo. Comprar aquela calça bege medonha porque está com 70% de desconto ou aquela camiseta amarela fluorescente da promoção só lhe fará ter menos espaço no guarda roupa.

Pesquisando a respeito dos fatores que nos levam a comprar coisas motivados por grandes descontos (e isso também acontece com as ações baratas), cheguei a uma simples, porém interessante conclusão: Nós não compramos coisas, nós compramos a sensação que a coisa comprada nos faz sentir. E grandes descontos nos dão a sensação de ter levado vantagem.

Quando vejo pessoas físicas adquirindo empresas ruins por terem ações baratas enxergo duas explicações: (i) é especulador e, como tal, entende os riscos no qual está se metendo e por mim ok, boa sorte; ou (ii) é aquele sujeito que comprou baseado no desconto desproporcional que o mercado “ingenuamente” está lhe oferecendo, e esse cara me preocupa.

A diferença entre empresas ruins e empresas boas em momentos ruins

ação barata - empresas

É importante fazer uma distinção: não confunda empresas boas a preços atraentes com esse tipo de empresa de que trata o artigo. Falo aqui exclusivamente das chamadas penny stocks, empresas que em algum momento já tiveram valor e justificadamente o mercado as puniu. Temos inúmeros exemplos: Construtora PDG Realty (PDGR3), Eternit (ETER3), OGX (OGXP3 e OGSA3), Paranapanema (PMAM3), entre diversas outras.

Infelizmente, pessoas físicas são as que mais sofrem com a ilusão de dinheiro fácil que empresas de centavos aparentam nos oferecer. Grandes investidores não se interessam em comprar ações de centavos apenas pelo preço porque têm plena consciência de que a ação não chegou àquele valor à toa. Os únicos que continuam negociando e perdendo dinheiro com milagres de turnaround somos nós. Minoritários.

No inconsciente das pessoas reside uma máxima de que cotações passadas em algum momento irão se repetir no futuro. Não! Esqueça isso. É uma completa bobagem. Não é porque determinada empresa valeu R$ 30,00 um dia que, necessariamente, irá valer novamente. Esse tipo de coisa pode acontecer com boas empresas, não com as ruins.

Não é fácil explicar em poucas linhas o que define uma boa empresa, mas se ela perdeu mais de 60% do valor de mercado ou se está em recuperação judicial, definitivamente não é! Olhe pelo lado bom, você não precisa nem acertar as melhores empresas, basta identificar as piores e ficar de fora.

O problema é que as pessoas olham o gráfico da empresa ruim que nunca entregou resultado ou está em recuperação judicial e confundem com empresas boas em momentos ruins. São situações completamente diferentes. A segunda, mesmo sofrendo uma desvalorização brutal, pode vir a se recuperar um dia, já a primeira não.

Conclusão sobre ação barata

A combinação de esperança com ganância costuma ser letal. Acreditar que uma empresa ruim, mesmo que comprada por centavos, irá lhe trazer retornos estratosféricos é tão ou mais lesivo que emprestar dinheiro ao governo Venezuelano e esperar tê-lo de volta algum dia.

Um dos dados que mais choca é saber que existem mais pessoas físicas sócias de empresas como OGX e PDG do que de empresas excelentes como a Grendene.

O curioso é que sempre tentei entender o que levava as pessoas a investirem seu dinheiro tão suado em empresas tão ruins. E a OGX voltando aos holofotes nesta última semana me fez perceber que, por muito pouco, não fui eu o cara a cometer tal pecado capital. Obrigado Marcello, me salvou dessa!

Gustavo Rigon

Até semana que vem!

Gustavo Rigon.
*Gustavo Rigon é colunista e escreve semanalmente para este blog e para a newsletter Investidor de Sucesso.